Um ensaio de piso é uma medição feita para responder a uma pergunta específica: se o piso é plano, se escorrega, se a superfície está dura ou se o concreto resiste à carga. Cada ensaio mede uma grandeza, e nenhum substitui o outro. O erro comum é usar o número de um ensaio para responder à pergunta de outro.

Não existe norma brasileira de campo específica para tratamento de superfície de pisos. Por isso o Grupo SPP adapta métodos, mede antes e depois e cita cada norma junto da sua medição. Aqui você vê como cada número é obtido, o que ele diz, o que ele não diz e o que já foi medido nas obras da SPP.

Qual ensaio responde à sua pergunta

Sua pergunta Grandeza Como se mede Referência O que não responde
O piso tem ondulações? Planicidade (FF) F-Numbers, com Dipstick, feito por terceiro ASTM E1155, com comparação pela ACI 117 Resistência
O piso segue o nível previsto? Nivelamento (FL) F-Numbers, com Dipstick, feito por terceiro ASTM E1155, com comparação pela ACI 117 Resistência
O piso escorrega? Resistência ao escorregamento American Slip Meter (ASM 825A) — Dureza nem resistência
A superfície está dura? Dureza superficial Esclerômetro, no local ABNT NBR 7584 Resistência à compressão
Quanto o concreto suporta à compressão? Fck Rompimento de corpos de prova cilíndricos, em laboratório de controle tecnológico, com prensa aferida ABNT NBR 5739 Planicidade
Quanto o concreto suporta à flexão? fctM,k Rompimento de corpos de prova prismáticos, em laboratório de controle tecnológico, com prensa aferida ABNT NBR 12142 Planicidade

Planicidade e nivelamento: o que os F-Numbers mostram

Planicidade e nivelamento parecem a mesma coisa, mas descrevem defeitos diferentes. A planicidade (FF) diz o quanto o piso ondula em trechos curtos. O nivelamento (FL) diz o quanto ele se afasta, em distâncias maiores, da inclinação prevista. Um piso pode ser bem plano e estar fora de nível, ou o contrário.

O método da ASTM E1155 mede o perfil do piso ao longo de linhas de pelo menos 3 m e transforma as leituras em números estatísticos. Quanto maior o número, mais plano ou mais nivelado é o piso.

A ACI 117 organiza esses números em classes, usadas para especificar pisos:

Classe FF global FL global
Convencional 20 15
Moderadamente plano 25 20
Plano 35 25
Muito plano 45 35
Superplano 60 40

O que os F-Numbers não dizem. Eles não falam de resistência, de dureza nem de atrito: um piso muito plano pode ser fraco, e um piso forte pode ser ondulado. São números estatísticos de uma área medida, não a nota de cada ponto. Também têm limite de uso: a própria ASTM E1155 diz que o resultado não deve ser usado para cobrar tolerância contratual em piso que recebe principalmente veículos de trajeto fixo, como os corredores estreitos de armazém. E, no piso novo, o momento da leitura pesa: a ACI 117 pede a medição de FF em até 72 horas depois do acabamento.

Escorregamento: o que o coeficiente de atrito mostra

O coeficiente de atrito indica quanto a superfície resiste ao deslizamento: quanto maior o número, mais ela segura. A SPP mede com o American Slip Meter (ASM 825A), com o piso seco e molhado, porque o resultado muda de uma condição para a outra.

Em concreto polido pelo sistema Super Piso, por granulometria final, o coeficiente de atrito medido com o American Slip Meter foi este:

Granulometria final Seco Molhado
#120 0,96 0,89
#200 0,89 0,76
#400 0,74 0,61
#800 0,69 0,53

De #120 a #800, quanto mais fino o polimento, menor o atrito. O concreto polido conserva microporos que aumentam o atrito, e o polimento fecha os poros à medida que a granulometria fica mais fina. Os resultados foram compatibilizados, na época, com a medição de um laboratório independente contratado pelo cliente da obra.

O que o coeficiente não diz. Ele não diz nada sobre dureza nem sobre resistência do concreto. Vale para aquele acabamento, naquela condição e naquele aparelho: cada instrumento tem seu método, e um número só se compara com outro medido do mesmo jeito. Por isso a granulometria final se escolhe pela segurança que o uso exige.

O limite do aparelho. O American Slip Meter é arrastado pelo piso. A HSE, autoridade britânica de saúde e segurança no trabalho, recomenda esse tipo de teste só para piso limpo e seco e alerta que, em piso molhado, ele pode dar informação enganosa. Por isso a coluna do piso molhado vale como registro deste ensaio, não como prova de que um piso é seguro molhado.

Dureza superficial: o que o esclerômetro mostra

O esclerômetro de reflexão aplica um impacto na superfície e lê o quanto o martelo recua. Essa leitura é o índice esclerométrico. O ensaio não destrói o piso e é feito no local.

Como o impacto atua na camada de superfície, a leitura responde ao que está ali: o acabamento, o agregado, a umidade, a carbonatação e a idade do concreto. A carbonatação tende a elevar o índice, e a umidade da superfície tende a reduzi-lo.

O erro mais comum: esclerômetro não mede compressão

A norma do esclerômetro se chama "Avaliação da dureza superficial pelo esclerômetro de reflexão" e diz no escopo que o método não é alternativa à determinação da resistência à compressão em corpo de prova. As duas medições são legítimas e medem coisas diferentes.

Isso pesa no piso polido. Uma leitura maior depois do polimento diz que a superfície mudou. Ela não diz que o concreto ficou mais resistente à compressão, porque a resistência do concreto é a medida em corpo de prova. A SPP avalia a dureza superficial com esclerômetro, no local, e não apresenta essa leitura como resistência do concreto.

Compressão: o que o Fck mostra

O Fck é a resistência característica do concreto à compressão. Ele vem do rompimento de corpos de prova cilíndricos em prensa aferida, em laboratório de controle tecnológico, pela ABNT NBR 5739.

"Característica" quer dizer que o valor é estatístico, não uma média: é a resistência que tem apenas 5% de probabilidade de não ser atingida pelo lote.

O que o Fck não diz. Ele fala do concreto, não da superfície pronta. Não diz se o piso é plano, se escorrega nem como o acabamento vai se comportar.

Tração na flexão: por que a fctM,k importa

Um piso industrial é uma placa apoiada sobre o solo. Quando uma carga passa por cima dela, como a roda de uma empilhadeira ou o apoio de um porta-palete, a placa flete: uma face fica comprimida, e a outra, tracionada. O concreto resiste muito menos à tração do que à compressão, e é nesse lado que a fissura tende a começar.

Por isso a fctM,k, a resistência característica à tração na flexão, é o parâmetro com que se dimensiona piso industrial. Nesse tema, ela vale mais do que o Fck sozinho. O ensaio da ABNT NBR 12142 reproduz esse esforço: um prisma de concreto, apoiado como uma viga, recebe duas forças nos terços do vão até romper.

O que a fctM,k não diz. Ela é uma propriedade do concreto. O desempenho do piso também depende de espessura, juntas, apoio e execução, e o número não mede planicidade.

Mohs: dureza ao risco não é desgaste

A escala de Mohs ordena dez minerais, do talco ao diamante, pela capacidade de um riscar o outro. É uma escala de ordem, não de proporção: ela diz qual material risca qual, não quantas vezes um é mais duro do que o outro.

Por isso ela mede dureza ao risco, não desgaste. Desgaste é a perda de material que se acumula com o uso, e um teste de risco não reproduz esse uso. A SPP não usa a escala de Mohs como medida de desgaste.

O que já foi medido nas obras da SPP

Planicidade e nivelamento: Shopping Villa Lobos

No estacionamento do Shopping Villa Lobos, em São Paulo, empresa terceira mediu uma área de cerca de 288 m² em agosto de 2018, antes e depois do Super Piso, com remoção da pintura epóxi. As leituras foram feitas nos mesmos pontos, pelo método F-Numbers da ASTM E1155, com Dipstick e a ACI 117 como referência. Não havia F-Numbers especificados para esse piso: a medição compara antes e depois, não confere uma meta. Na tabela, FX é a coordenada do ponto de medição.

Coordenada e linha FF antes FF depois
FX1, linha 1 13,5 16,2
FX1, linha 2 17,3 23,6
FX1, linha 3 12,7 25,1
FX1, linha 4 14,9 19,8
FX1, linha 5 17,7 22,4
FX1, linha 6 13,9 22,9
FX2, linha 1 16,2 17,9
FX2, linha 2 13,8 17,7
FX2, linha 3 15,8 20,4
FX2, linha 4 28,2 30,4
FX2, linha 5 19,3 28,8
FX2, linha 6 28,3 30,6

A planicidade ficou cerca de 30% melhor nesse caso, e o nivelamento não teve alteração significativa. As doze linhas subiram, mas não por igual, e é por isso que o detalhe importa mais do que a média. O desbaste corrige planicidade, não nivelamento: ele corta as ondulações curtas da superfície, sem mudar a inclinação geral do piso. O resultado vale para essa área de 288 m², em 2018, e não se estende à obra inteira.

Piso novo: Kim Pães

Na expansão da fábrica da Kim Pães, com 2.000 m², os resultados foram Fck 60 MPa e fctM,k 8,7 MPa, em laboratório de controle tecnológico, por rompimento de corpos de prova cilíndricos e prismáticos, e FF 55 e FL 31, com Dipstick.

São quatro números porque são quatro perguntas. Fck e fctM,k respondem pelo concreto, e FF e FL respondem pela geometria do piso. Um não prova o outro.

Como usar esses números ao especificar ou receber um piso

  • Comece pela pergunta. Defina o que você precisa saber antes de pedir o ensaio.
  • Peça o método junto do número. Um resultado se sustenta com equipamento, referência, quem mediu, data e área medida.
  • Compare igual com igual. Antes e depois valem nos mesmos pontos e com o mesmo método.
  • Não estenda o resultado. O número vale para a área medida e para a condição do ensaio.
  • Para falar de resistência do concreto, peça corpo de prova. O esclerômetro não substitui esse ensaio.

Para entender o que o seu piso precisa, veja a página de diagnóstico. Para ver o que acontece com a superfície durante o processo, leia o que é a lapidação e o polimento diamantado.

Normas e ensaios, um a um